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A Arquitetura consumida na fogueira das vaidades (editorial)

Edson da Cunha Mahfuz      Arquiteto, professor de projetos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS

  Talvez não se trate de uma percepção generalizada, mas a arquitetura brasileira atravessa uma fase de decadência acentuada que já se estende por quase quatro décadas, coincidindo o seu início com a inauguração de Brasília. É comum arquitetos estrangeiros nos visitarem e se interessarem apenas por obras de antes daquele período, salvo uma ou outra exceção que escapa ao padrão dominante de baixa qualidade.

O que teria acontecido com a arquitetura que despertou o interesse do mundo nas décadas de 40 e 50, e nos colocou no mapa da arquitetura internacional como um local de produção cultural, mais do que de reprodução? Teriam nossos arquitetos perdido sua capacidade criativa? Teria sido o fenômeno que se inicia com o Ministério da Educação e Saúde um mero acaso?

As razões de tal fenômeno são bastante complexas. A sua investigação completa seria trabalho árduo e talvez quixotesco, mas talvez seja de alguma utilidade especular sobre algumas dessas razões.

Razões conjunturais da má arquitetura brasileira contemporânea     Eu mencionaria dois fatores conjunturais importantes, relativos ao patronato e ao número de qualidade dos profissionais que atuam no Brasil.

É fato comprovado que a boa arquitetura não depende apenas de um bom arquiteto: um bom cliente é quase tão importante.

O período pós-Brasília caracteriza-se pela falta quase total de lideranças culturais esclarecidas assim como pela crescente predominância da construção comercial, dominada pelas razões do mercado e pela obsessão generalizada com a criação da imagem.

Concomitantemente, houve uma retração no número de encargos públicos e de instituição privadas (lembre-se, por exemplo, o número de agências bancárias construídas em tempos passados). Coincidência ou não, o declínio do patronato estatal e a percepção de uma queda na qualidade da nossa arquitetura acontecem quase ao mesmo tempo. Isso não quer dizer que só se possa fazer boa arquitetura sob a égide do Estado, nem que toda a arquitetura originada por programas governamentais seja de alta qualidade, mas é fato incontestável que por trás de vários casos conhecidos de produção coletiva de alta qualidade está um alto número de encargos públicos. Além do caso brasileiro no período que vai de 1936 a 1960, os melhores exemplos de produção coletiva da arquitetura moderna na segunda metade do século, a dos países escandinavos, da França e da Espanha – onde se concentra a melhor arquitetura produzida nos últimos vinte anos – consistem, na sua maioria, em obras realizadas para o setor público. O que explica essa relação entre alta qualidade e obra pública? Em parte à ausência de pressão do mercado: não havendo intenção de lucro, a busca da qualidade real é favorecida. Por outro lado, constata-se a presença de lideranças esclarecidas que entendem o papel cultural da arquitetura e a importância das instituições no que se refere ao estímulo e fomento das artes visuais, entre as quais se insere a arquitetura.

A outra razão conjuntural da má arquitetura atual tem a ver com o número excessivo de profissionais que ingressam anualmente em um mercado de trabalho que não tem como absorvê-los. Essa multidão é resultado do número crescente de escolas de arquitetura criadas no país, mais de cento e trinta na última contagem, muitas delas sem qualquer condição de formar profissionais competentes. O resultado disso é um nivelamento por baixo, redução ao absurdo do padrão de honorários, e uma produção marcada pela falta de critérios, muitas vezes aliada à falta de escrúpulos.

Decadência da arquitetura como profissão relevante     Mas eu diria que há algo que, se não explica todo o fenômeno, ajuda a entendê-lo um pouco melhor. Trata-se de uma mudança radical de atitude de muitos arquitetos em relação à própria arquitetura e ao seu trabalho. Vale recordar que, pelo menos até o final do regime militar no Brasil, a arquitetura era vista como uma profissão com um papel social definido, e aqueles que nela ingressavam tinham a esperança de contribuir para a elevação da qualidade de vida do maior número de pessoas. Hoje, a máxima inspiração de grande parte dos jovens arquitetos é participar de eventos como Casa Cor e similares.

Essa mudança de atitude começa a se tornar evidente na década recém terminada e é fenômeno internacional que adquire matizes regionais. Ela se caracteriza essencialmente pelo entendimento dos objetivos arquitetônicos como objetos de consumo, por uma visão da profissão como prestação de serviços, pela vinculação da arquitetura às atividades voltadas para o espetáculo e pela sua utilização como veículo de auto-expressão e/ou afirmação do arquiteto. Por trás dessas atitudes está a veneração contemporânea ao mercado, ao qual todos os aspectos da nossa vida devem estar subordinados.

Arquitetura e consumo     É da natureza dos objetos de consumo a sua obsolescência planejada. Além de terem uma duração predeterminada, sofrem alterações raramente necessárias visando criar no público o desejo e a necessidade de adquirir a nova versão ou modelo, alterações que seguem as modas ou “tendências” (os carros se tornam mais arredondados ou angulosos, as barras das saias mais altas ou curtas, os tecidos mais estampados ou mais neutros). Nada disso seguindo outra lógica que não seja a do mercado.

A arquitetura, por outro lado, leva tempo para ser pensada e desenvolvida (embora os clientes brasileiros imaginem que se possa fazer um bom projeto em um mês), mais tempo ainda para ser construída e normalmente permanece em uso por décadas e até séculos, sempre no mesmo lugar. Além disso, sua constituição não é facilmente alterável, e qualquer reforma que mude decisivamente a aparência de um edifício tem um custo considerável.

A moda é algo fugaz, efêmero, que muda todo ano, todo mês, toda hora. Tendência é um impulso desde o presente em direção ao que ainda não existe, a não ser na mente de uns poucos.

Sendo assim, como se pode tratar um edifício como objeto de consumo, adotando a última moda ou “tendência” e tratando sua organização e aparência de maneira leviana? Uma roupa de corte fora de moda pode ser descartada facilmente, um carro já é mais difícil, um edifício é impossível. O projeto arquitetônico que segue a moda pode até ser o sucesso de hoje, mas com mais certeza será o embaraço de amanhã, e o ridículo de depois de amanhã. Tratar a arquitetura como algo passível de ser consumido termina por tornar a própria disciplina obsoleta, enquanto seus produtos permanecem como monumentos à estupidez humana.

Arquitetura e prestação de serviços     Esta atitude é muito próxima da anterior; pode-se até dizer que seja o seu complemento. De muitas maneiras a arquitetura presta serviços à sociedade, mas nunca havia sido definida como uma das profissões da área dos serviços, como alguns parecem entendê-la.

No sentido atual, atuar em arquitetura como “prestador de serviços” significa uma rendição quase total aos desejos do cliente e às imposições do mercado e a conseqüente perda da dimensão cultural da arquitetura. O arquiteto “prestador de serviços” abraça com devoção uma prática que muda ao sabor das modas, não importando a sua relevância ou falta de. Se a tendência é a arquitetura da Califórnia, por que não segui-la? O importante é estar “alinhado com o mercado”, no dizer de um caderno local de “arquitetura”.

Qual o problema? O arquiteto prestador de serviços deixa de ser o criador da forma pertinente como síntese dos aspectos específicos e fundamentais do problema arquitetônico – programa, lugar e construção – para transformar-se em um “gestor mais ou menos comercial de imagens de origem no mínimo duvidosas”, (1) seu trabalho convertido em mero packaging. Além da irrelevância do que faz, incorre em charlatanismo ao invadir o campo de trabalho do publicitário e do artista gráfico.

Arquitetura como auto-expressão     Na pré-história do modernismo, o artista romântico aspirava à expressar suas emoções através da arte. Embora tenha resultado em um número considerável de edifícios, esse modo de encarar o trabalho artístico se viu suplantado, na primeira metade do século XX, por uma concepção de arquitetura centrada na abstração e na busca de universalidade.

No entanto, passada a segunda guerra mundial, a expressão individual voltou a ser um tema importante do ponto de vista cultural, como um aspecto da revisão a que foi sujeita a arquitetura moderna. Como nunca visto até então, a arquitetura passou a ser usada como veículo de expressão de emoções, fantasias ou mesmo obsessões  individuais. O que vemos, então, em nossas cidades é um número crescente de edifícios que não passam de “figurações particularmente arbitrárias e caprichosas, produto da ação descontrolada de paixões e frustrações íntimas”. (2)

Mas, é preciso perguntar: a quem interessa essa expressividade da arquitetura a não ser aos seus próprios autores? Se a arquitetura ainda tem um papel cultural a representar, “o arquiteto deve superar os aspectos meramente individuais e buscar uma dimensão expressiva de caráter supra-pessoal, em que a produção cultural tem valor precisamente porque não pertence à ninguém”. (3) Segundo Carlos Martí Arís, “os verdadeiros objetivos da obra de arquitetura não tratam de utilizá-la como expressão de emoções ou veículo de fantasias, mas fazer que ela seja capaz de  revelar dimensões ou aspectos da realidade que interessam a todos”. (4)

O que muitos arquitetos parecem estar esquecendo é que sua obrigação fundamental é dar ordem aos espaços que abrigam as atividades humanas, e não usar irresponsavelmente os recursos alheios como veículos de auto-expressão.

Arquitetura e afirmação pessoal     Vivemos em um tempo obcecado pelo culto à personalidade individual, seja ela interessante ou não. Basta uma visita à banca de jornais mais próxima para entender o que digo. Os meios de comunicação adquiriram tanta importância que “a hierarquia pública dos famosos se impõe sobre o reconhecimento privado dos competentes”. (5) É muito comum que o público conheça alguns arquitetos de nome e até a sua aparência, sem no entanto poder nomear uma única obra feita por ele ou ela.

Muitos arquitetos entraram com tudo no mercado do espetáculo, como demonstram não apenas os membros do star system internacional que se movem alegremente de uma bienal para outra, mas também seus epígonos regionais. O que importa é “construir a sua imagem”. (6) A profissão, para muitos, passou a ser apenas um meio para obter fama e, se possível, riqueza. É obvio que a qualidade de uma arquitetura produzida em tais circunstâncias tem que ser mínima pois suas motivações são quase sempre alheias à arquitetura autêntica que cria as verdadeiras cidades.

Arquitetura espetacular     Em recente entrevista, um importante arquiteto brasileiro disse que a “sua arquitetura é feita também para causar espanto”. Infelizmente, essa não é uma atitude isolada e tem longa história. O problema reside em confundir ineditismo com originalidade e inovação formal com qualidade arquitetônica. Poucos se dão conta de que “a busca da novidade plástica e da forma insólita não representa necessariamente um avanço para o conhecimento nem é garantia de legitimidade artística”. (7)

É exatamente a essa atitude que se deve boa parte das atrocidades visuais que pretendem ser arquitetura, em toda parte, mas principalmente no Brasil, onde simplicidade é considerada falta de talento, enquanto a falta de critérios e responsabilidade profissional são tomadas como provas de talento superior.

O resultado do exposto acima é uma situação em que nossas cidades estão se tornando uma espantosa mistura de Disneylândia com Las Vegas. Nossa arquitetura deixou de freqüentar as melhores publicações estrangeiras. É claro que ainda há bons arquitetos no Brasil, mas sua produção é numericamente insignificante perante a quantidade de má arquitetura que é produzida rotineiramente. A situação atual pode ser descrita por meio de um clichê antigo mas ainda válido: há muita construção e pouquíssima arquitetura. A maioria dos edifícios recentes tende a estar entre o pastiche historicista e o amontoado de formas incompreensivelmente agrupadas, em que programa, lugar e construção desempenham um papel bastante secundário.

Embora o panorama traçado acima pareça sombrio, penso que corresponde com bastante fidelidade à situação atual, pelo menos se observada desde a posição de quem ainda acredita no papel da arquitetura como disciplina que produz cultura autêntica na forma de objetos arquitetônicos e lugares urbanos.

Notas:
(1)     Helio Piñon, entrevista não publicada, 8/12/200
(2)     Helio Piñon, idem
(3)     Carlos Martí Arís, Silenciosos elocuentes, EdicionsUPC, Barcelona:1999
(4)     Carlos Martí Arís, idem
(5)     Helio Piñon, idem
(6)     Carlos Martí Arís, idem

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