Skip navigation


conteúdo da página arquitetando    http://bhpbrasil.spaces.live.com/ 
 
LUCIO COSTA
Brasília 50 anos
Memorial do Plano Piloto de Brasília, e o pensamento de Lucio Costa 
 
   Memorial do Plano Piloto de Brasília

Lucio Costa

Planalto Central, 1957. Risco inicial do traçado de Brasília. Fonte da imagem: Livro Lucio Costa o inventor da cidade de Brasília. Crédito Casa Lucio Costa.

…..

  Desejo inicialmente desculpar-me perante a Direção da Companhia Urbanizadora e a Comissão Julgadora do Concurso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido para a nova Capital e também justificar-me.

Não pretendia competir e, na verdade, não concorro; apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já pronta.

Compareço, não como técnico devidamente aparelhado, pois nem sequer disponho de escritório, mas como simples "maquis" no desenvolvimento da idéia apresentada, senão eventualmente na qualidade de mero consultor. E se procedo assim cândidamente, é porque me amparo num raciocínio igualmente simplório; se a sugestão é válida, êstes dados, conquanto sumários na sua aparência, já serão suficientes, pois revelarão que, apesar da espontaneidade original, ela foi, depois, intensamente pensada e resolvida; se não o é, a exclusão se fará mais fàcilmente, e não terei perdido meu tempo nem tomado o tempo de ninguém.

A liberação do acesso ao concurso o reduziu de certo modo à consulta àquilo que de fato importa, ou seja à concepção urbanística da cidade pròpriamente dita, porque esta não será, no caso, uma decorrência do planejamento regional, mas a causa dêle; a sua fundação é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado da região. Trata-se de um ato desbravador, nos moldes da tradição colonial. E o que se indaga é como no entender de cada concorrente uma tal cidade deve ser concebida.

 Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher, satisfatoriamente, sem esfôrço as funções vitais próprias de UMA CIDADE MODERNA QUALQUER, não apenas como URBS, mas como CIVITAS, possuidora dos atributos inerentes a uma Capital. E para tanto, a condição primeira é achar-se o urbanista iimbuído de UMA CERTA DIGNIDADE E NOBREZA DE INTENÇÃO, porquanto desta atividade fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de torna-se, com o tempo, além de centro de govêrno e administração, num foco de cultura das mais lúcidas do país.

Dito isto, vejamos como nasceu, se definiu e resolveu a presente solução:

1. Nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dêle toma posse:– dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da Cruz.

3. Procurou-se depois a adaptação à topografia local, ao escoamento natural das águas, à melhor orientação, arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo no triângulo equilátero que define a área urbanizada.

3. E houve o propósito de aplicar os princípios francos da técnica rodoviária — inclusive a eliminação de cruzamentos — à técnica urbanística, conferindo-se ao eixo arqueado, correspondente às vias naturais de acesso, a função circulatória-tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais, para o tráfego local, e dispondo-se ao longo dêsse eixo o grosso dos setores residenciais.

4. Como decorrência dessa concentração residencial, os centros cívico e administrativo, o setor cultural, o centro de diversões, o centro esportivo, o setor administrativo municipal, os quartéis, as zonas destinadas à armazenagem, ao abastecimento e às pequenas indústrias locais, e, por fim, a estação ferroviária, foram-se naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal que passou a ser assim o eixo-monumental do sistema. Lateralmente à interseção dos dois eixos, mas participando funcionalmente e em têrmos de composição urbanística do eixo-monumental, localizaram-se o setor bancário e comercial, o setor de escritórios de emprêsas e profissões liberais e ainda amplos setores de varejo comercial.

5. O cruzamento dêsse eixo monumental, de cota inferior, com eixo rodoviário-residencial impôs a criação de uma grande plataforma liberta do tráfego que não se destina ao estacionamento ali, remanso onde se concentrou lògicamente o centro de diversões da cidade, com os cinemas, os teatros, os restaurantes, etc.

6. O tráfego destinado aos demais setores prossegue, ordenado em mão única na área inferior coberta pela plataforma e entalada nos dois topos, mas aberta nas faces maiores, área utilizada em grande parte para o estacionamento de veículos onde se localizou a estação rodoviária interurbana, acessível aos passageiros pelo nível superior da plataforma. Apenas as pistas de velocidade mergulham, já então subterrâneas, na parte central dêsse piso inferior que se espraia em declive até nivelar-se com a esplanada do setor dos Ministérios.

7. Dêsse modo e com a introdução de três trevos completos em cada ramo do eixo rodoviário e outras tantas passagens de nível inferior, o tráfego de automóveis e ônibus se processa tanto na parte central quanto nos setores residenciais sem qualquer cruzamento. Para o tráfego de caminhões estabeleceu-se um sistema secundário autônomo com cruzamentos sinalizados, mas sem cruzamento ou interferência alguma com o sistema anterior, salvo acima do setor esportivo, e que a cede aos edifícios do setor comercial ao nível do subsolo, contornando o centro cívico, em cota inferior, com galerias de acesso previstas no terrapleno.

8. Fixada a rêde geral do tráfego de automóvel, estabeleceram-se tanto nos setores centrais como nos residenciais tramas autônomas para o trânsito local dos pedestres a fim de garantir-lhes o uso livre do chão, sem, contudo,levar tal separação a extremos sistemáticos e antinaturais, pois não se deve esquecer que o automóvel, hoje em dia, deixou de ser o inimigo inconciliável do homem, domesticou-se, já faz, por assim dizer, parte da família. Êle só se "desumaniza, readquirindo vis-a-vis do pedestre, feição ameaçadora e hostil, quando incorporado à massa anônima do tráfego". Há, então, que separá-lo, mas sem perder de vista que, em determinadas condições e para comodidade recíproca, a coexistência se impõe…

9. Veja-se agora como, nesse arcabouço de circulação ordenada, se integram e articulam os vários setores. Destacam-se, no conjunto, os edifícios destinados aos podêres fundamentais que, sendo em número de três e autônomos, encontraram no triângulo equilátero, vinculado à arquitetura da mais remota antiguidade, a forma elementar apropriada para contê-los. Criou-se, então, um terrapleno triangular, com arrimo de pedra à vista, sobrelevado na campina circunvizinha, a que se tem acesso pela própria rampa da auto-estrada que conduz à residência e ao aeroporto. Em cada ângulo dessa praça — PRAÇA DOS TRÊS PODERES — localizou-se uma das casas, ficando as do govêrno e do Supremo Tribunal na base, a do Congresso no vértice, com frente igualmente para uma esplanada ampla, disposta num segundo terrapleno, de forma retangular e nivel mais alto, de acôrdo com a topografia local, igulamente arrimado de pedras em todo o seu perímetro. A aplicação, em têrmos atuais, dessa técnica oriental milenar dos terraplenos garante a coesão do conjunto e lhe confere uma ênfase monumental imprevista. Ao longo dessa esplanada — o Mall dos inglêses, extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles, foram dispostos os ministérios e autarquias. Os das Relações Exteriores e Justiça ocupando os cantos infericres, contíguos ao edifício do Congresso e com enquadramento condigno; os Ministérios militares, constituindo uma praça autônoma, e os demais ordenados em sequência — todos com áreas privativas de estacionamento — sendo o último o da Educação, a fim de ficar vizinho do setor cultural, tratado à maneira de parque para melhor ambientação dos museus, da biblioteca, do planetário, das academias, dos institutos, etc., setor êsse também contíguo à ampla área destinada à Cidade Universitária com o respectivo Hospital de Clínicas e onde também se prevê a instalação do Observatório. A Catedral ficou igualmente localizada nessa esplanada, mas numa praça autônoma disposta lateralmente, não só por questão de protocolo, uma vez que a Igreja é separada do Estado, como por questão de escala, tendo-se em vista valorizar o monumento e, ainda, principalmente por outra razão de ordem arquitetônica: a perspectiva de conjunto da esplanada deve prosseguir desimpedida até além da plataforma, onde os dois eixos se cruzam.

10. Nesta plataforma, onde, como se viu anteriormente, o tráfego é apenas local, sitou-se então o centro de diversões da cidade ( mistura, em têrmos adequados, de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées). A face da platafoma debruçada sôbre o setor cultural e a esplanada dos Ministérios, não foi edificada, com exceção de uma eventual casa de chá e da Ópera, cujo acesso tanto se faz pelo próprio setor de diversões, como pelo setor cultural contíguo, em plano inferior. Na face fronteira foram concentrados os cinemas e teatros, cujo gabarito se fêz baixo e uniforme, constituindo, assim, o conjunto dêles, um corpo arquitetônico contínuo, com galeria, amplas calçadas, terraços e cafés, servindo as respectivas fachadas em tôda a altura de campo livre para a instalação de painéis luminosos de reclame. As várias casas de espetáculo estarão ligadas entre si por travessas no gênero tradicional da rua do Ouvidor, das vielas venezianas ou de galerias cobertas (arcadas) e articuladas a pequenos pátios com bares e cafés, e "loggias" na parte dos fundos, com vista para o parque, tudo no propósito de propiciar ambiente adequado ao convívio e à expansão. O pavimento térreo do setor central dêsse conjunto de teatros e cinemas manteve-se vazado em tôda a sua extensão, salvo os núcleos de acesso aos pavimentos superiores, a fim de garantir continuidade à perspectiva, e os andares se previram envidraçados nas duas faces, para que os restaurantes, clubes, casas de chá, etc, tenham vista de um lado para a esplanada inferior, e do outro para o aclive do parque no prolongamento do eixo monumental e onde ficaram localizados os hotéis comerciais e de turismo,e , mais acima, para a tôrre monumental das estações radioemissoras e de televisão tratada como elemento plástico integrado na composição geral. Na parte central da plataforma, porém, disposto lateralmente, acha-se o saguão da estação rodoviária com bilheteria, bares, restaurantes, etc, construção baixa, ligadas por escadas rolantes ao hall inferior de embarque, separado por envidraçamento do cais pròpriamento dito. O sistema de mão única obriga os ônibus, na saída, a uma volta, num ou noutro sentido, fora da área coberta pela plataforma, o que permite ao viajante uma última vista ao eixo monumental da cidade antes de entrar no eixo rodoviário-residencial — despedida psicològicamente desejável. Previram-se igualmente nesta extensa plataforma destinada principalmente , tal como no piso érreo, ao estacionamento de automóveis, duas amplas praças privativas de pedestres, uma fronteira ao teatro da ópera e outra, simètricamente disposta, em frente a um pavilhão de pouca altura debruçado sôbre os jardins do setor cultural e destinado a restaurante, bar e casa de chá. Nestas praças, as pistas de rolamento, sempre de sentido único, foi ligeiramente sobrelevado em larga extensão para o livre cruzamento dos pedestres num e noutro sentido, o que permitirá acesso franco e direto tanto aos setores do varejo comercial quanto ao setor dos bancos e escritórios.

11. Lateralmente ao setor central de diversões, e articulados a êle, encontram-se dois grandes núcleos destinados, exclusivamente, ao comércio – lojas e magazines, e dois setores distintos, o bancário-comercial e o dos escritórios para profissões liberais, representações e emprêsas, onde foram localizados respectivamente o Banco do Brasil e a sede dos Correios e Telégrafos. Êsses núcleos e setores são acessíveis aos automóveis diretamente das respectivas pistas, e aos pedestres por calçadas sem cruzamento e dispõem de autoportos para estacionamento em dois níveis e de acesso de serviço pelo subsolo correspondente ao piso inferior da plataforma central. No setor dos bancos, tal como no dos escritórios, previram-se três blocos altos e quatro de menor altura, ligados entre si por extensa área térrea com sobreloja, de modo a permitir intercomunicação coberta e amplo espaço para instalação de agências bancárias, agências de emprêsas, cafés, restaurantes, etc. Em cada núcleo comercial, propõe-se uma sequência ordenada de blocos baixos e alongados e um maior, de igual altura dos anteriores, todos interligados por um amplo corpo térreo com lojas, sobrelojas e galerias. Dois braços elevados da pista de contôrno permitem, também aqui, acesso franco aos pedestres.

12. O setor esportivo, com extensíssima área destinada exclusivamente ao estacionamento de automóveis, instalou-se entre a Praça da Municipalidade e a tôrre radioemissora, que se prevê de planta triangular com embasamento monumental de concreto aparente até o piso dos estúdios e mais instalações e superestrutura metálica com mirante localizado a meia altura. De um lado, o estádio e mais dependências, tendo aos fundos o Jardim Botânico; do outro, hipódromo com as respectivas tribunas e vila hípica e, contíguo, o Jardim Zoológico constituindo essas duas imensas áreas verdes, simètricamente dispostas em relação ao eixo monumental, como que pulmões de nova cidade.

13. Na Praça Municipal instalaram-se a Prefeitura, a Polícia Central, o Corpo de Bombeiros e a Assistência Pública. A penitenciária e o hospício, conquanto afastados do contro urbanizado, fazem igualmente parte dêste setor.

14. Acima do setor municipal, foram dispostas as garagens da viação urbana, em seguida, de uma banda e de outra os quartéis e numa larga faixa transversal o setor destinado ao armazenamento e à instalação das pequenas indústrias de interêsse local, com setor residencial autônomo, zona esta rematada pela estação ferroviária e articulada igualmente a um dos ramos da ramos da rodovia destinada aos caminhões.

15. Percorrido assim de ponta a ponta êsse eixo monumental, vê-se que a fluência e unidade do traçado, desde a praça do Govêrno até a Praça Municipal, não exclui a variedade e cada setor, por assim dizer, vale por si como organismo praticamente autônomo na composição do conjunto. Essa autonomia cria espaços adequados à escala do homem e permite o diálogo monumental localizado sem prejuízo de desempenho arquitetônico de cada setor na harmonia da integração urbanística do todo.

16. Quanto ao problema residencial, ocorreu a solução de criar-se uma seqüência contínua de grandes quadras dispostas em ordem dupla ou singela, de ambos os lados da faixa rodoviária, e emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo em cada quadra determinada espécie vegetal, com chão gramado e uma cortina suplementar interminente de arbustos e folhagens, a fim de resguardar melhor, qualquer que seja a posição do observador, o conteúdo das quadras visto sempre num segundo plano e como que amortecido na paisagem.. Disposição que apresenta a dupla vantagem de garantir a ordenação urbanística mesmo quando varie a densidade, categoria, padrão ou qualidade arquitetônica dos edifícios e de oferecer aos moradores extensas faixas sombreadas para passeio e lazer, independentemente das áreas livres previstas no interior das próprias quadras.

Dentro dessas "superquadras" os blocos residenciais podem dispor-se da maneira mais variada, obedecendo porém, a dois princípios gerais: gabarito máximo uniforme, talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres, mormente o acesso à escola primária e às comodidades existentes no interior de cada quadra.

Ao fundo das quadras, estende-se a via de serviços para o tráfego de caminhóes, destinando-se ao longo dela a frente oposta às quadras a instalação de garagens, oficinas, depósitos de comércio em grosso, etc. e reservando-se uma faixa de terreno equivalente a uma terceira ordem de quadras para floricultura, horta e pomar. Entaladas entre essa via de serviço e as vias do eixo rodoviário, intercalam-se então largas e extensas faixas com acesso alternado, ora por uma ora por outra, e onde se localizaram a igreja, as escolas secundárias, o cinema e o varejo do bairro, disposto conforme a sua classe ou natureza.

O mercadinho, o açougue, as vendas, quitandas, casas de ferragens etc, na primeira metade da faixa correspondente ao acesso de serviço; as barbearias, cabelereiros, modistas, confeitarias, etc na primeira seção da faixa de acesso privativo dos automóveis e ônibus, onde se encontram igualmente os postos de serviço para venda de gasolina. As lojas dispõem-se em renque com vitrinas e passeio coberto na face fronteira às cintas arborizadas de enquadramento dos quarteirões e privativas dos pedestres, e o estacionamento na face oposta contígua às vias de acesso motorizado, prevendo-se travessas para ligação de uma parte a outra, ficando, assim, as lojas geminadas duas a duas, embora o seu conjunto constitua um corpo só.

Na confluência das quatro quadras, localizou-se a igreja do bairro, e aos fundos dela as escolas secundárias, ao passo que na parte da faixa de serviço fronteira à rodovia se previu o cinema, a fim de torná-lo acessível a quem proceda de outros bairros, ficando a extensa área livre intermediária destinada ao clube de juventude, com campos de jogos e recreio.

17. A graduação social poderá ser dosada fàcilmente, atribuindo-se maior valor a determinadas quadras, como, por exemplo, às quadras singelas contíguas ao setor das embaixadas, setor que se estende de ambos os lados do eixo principal paralelamente ao eixo rodoviário, com alamêda, de acesso autônomo, e via de serviço para o tráfego de caminhóes comum às quadras residenciais. Essa alameda, por assim dizer, privativa dos bairros das embaixadas e legações, se prevê edificada apenas num dos lados, deixando-se o outro com a vista desimpedida sôbre a paisagem, excetuando-se o hotel principal localizado nesse setor e próximo do centro da cidade. No outro lado do eixo-rodoviário-residencial, as quadras contíguas à rodoviária serão naturalmente mais valorizadas que as quadras internas, o que permitirá as gradações próprias do regime vigente; contudo, o agrupamento delas, de quatro em quatro, propicia, em certo grau, a coexistência social, evitando-se assim uma indevida e indesejável estratificação. E, seja como fôr, as diferenças de padrão de uma quadra a outra serão neutralizadas pelo próprio agenciamento urganístico proposto, e não serão de natureza a afetar o confôrto social a que todos têm direito. Elas decorrerão apenas de uma maior ou menor densidade, de maior ou menor espaço atribuído a cada indivíduo e a cada família, da escolha dos materiais e do grau e requinte do acabamento. Neste sentido, deve-se impedir a enquistação de favelas, tanto na periferia urbana quanto na rural. Cabe à Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações decentes e econômicas para a totalidade da população.

18. Previram-se igualmente sotores ilhados, cercados de arvoredo e de campo, destinados a loteamento para casas individuais, sugerindo-se uma disposição dentada em cremalheira para que as casas construídas nos lotes do tôpo se destaquem na paisagem, afastadas umas das outras disposição que ainda permite acesso autônomo do serviço para todos os lotes. E admitiu-se igualmente a constução eventual de casas avulsas isoladas, de alto padrão arquitetônico — o que não implica tamanho — estabelecendo-se porém, como regra, nestes casos, o afastamento mínimo de um quilômetro de casa a casa, o que acentuará o caráter excepcional dessas concessões.

19. Os cemitérios localizados nos extremos do eixo rodiviário-residencial, evitam aos cortejos a travessia do centro urbano. Terão chão e grama e serão convenientemente arborizados, com sepulturas rasas e lápides singelas, à maneira inglesa, tudo desprovido de qualquer ostentação.

20. Evitou-se a localização dos bairros residenciais na orla da lagoa, a fim de preservá-la intata, tratada com bosques e campos de feição naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas de tôda a população urbana. Apenas os clubes esportivos, os restaurantes, os lugares de recreio, os balneários e os núcleos de pesca podem chegar à beira d’água. O clube de Gôlfe situou-se na extremidade leste, contíguo à residência e ao Hotel, ambos em construção e o Iate Clube, na enseada vizinha, entremeados por denso bosque que se estende até à margem da reprêsa, bordejada neste trecho pela alamêda de contôrno que intermitentemente se desprende de sua orla para embrenhar-se pelo campo que se pretende eventualmente florido e manchado de arvoredo. Essa estrada se articula ao eixo rodoviário e também à pista autônoma de acesso direto do aeroporto ao centro cívico, por onde entrarão na cidade os visitantes ilustes, podendo a respectiva saída processar-se, com vantagem, pelo próprio eixo rodoviário-residencial. Propõe-se ainda a localização do aeroporto definitivo na área interna da reprêsa, a fim de evitar-lhe a travessia ou o contôrno.

Quanto à numeração urbana, a referência deve ser o eixo monumental, distribuindo-se a cidade em metades NORTE e SUL, as quadras seriam assinaladas por números, os blocos residenciais por letras, e, finalmente, o número de apartamentos na forma usual, assim por exemplo: N-Q3 – L – ap 201. A designação dos blocos em relação à entrada da quadra deve seguir da esquerda para a direita, de acôrdo com a norma.

22. Resta o problema, de como dispor do terreno e troná-lo acessível ao capital oarticular, Entendo que as quadras não devem ser loteadas, sugerindo, em vez de venda de lotes, a venda de quotas de terreno, cujo valor dependerá do setor em causa e do gabarito, a fim de não entravar o planejamento atual e possíveis remodelações futuras no delineamento interno das quadras. Entendo, também, que esse planejamento deveria de preferência anteceder a venda das quotas, mas nada impede que compradores de um número substancial de quotas submetam à aprovação da Companhia projeto próprio de uma urbanização de uma determinada quadra, e que, além de facilitar aos incorporadores a aquisição de quotas, a própria Companhia funcione, em grande parte, como incorporadora. E entendo igualmente que o preço das quotas, oscilável conforme a procura, deveria incluir uma parcela com taxa fixa, destinada a cobrir as despesas do projeto no intuito de facilitar tanto o convite a determinados arquitetos, como a abertura de concursos para a urbanização e edificação das quadras que não fôssem projetadas pela Divisão de Arquitetura da própria Companhia. E sugiro ainda que a aprovação dos projetos se processe em duas etapas, anteprojeto e projeto definitivo, no intuito de permitir seleção prévia e melhor contrôle da qualidade das construcões.

Da mesma forma quanto ao setor do varejo comercial e aos setores bancários e dos escritórios das empresas e profissões liberais, que deveriam ser projetados previamente de modo a se poderem fracionar em subsetores e unidades autônomas, sem prejuíso da integridade arquitetônica, e assim se sumeterem parceladamente à venda no mercado imobiliário, podendo a costrução propriamente dita, ou parte dela, correr por conta dos interessados ou da Companhia, ou, ainda, conjuntamente.

23. Resumindo, a solução apresentada é de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui, conforme se viu, a variedade no tratamento das partes, cada qual concebida segundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando daí a harmonia da exigências de aparência contraditória. É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficiente, acolhedora e íntima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. O tráfego de automóveis de processa sem cruzamento, e se restitui o chão, na justa medida, ao pedestre. E, por ter o arcabouço tão claramente definido, é de fácil execução: dois eixos, dois terraplenos, uma plataforma, duas pistas largas num sentido, uma rodovia no outro, rodovia que pode ser construída por partes — primeiro as faixas centrais com um trevo de cada lado, depois as pistas laterais, que avançariam com o desenvolvimento normal da cidade. As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paisagisticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem calçamento de qualquer espécie nem meios-fios. De uma parte, técnica rodoviária: de outra, técnica paisagística de parques e jardins.”

(Extraído do COE – Código de Obras e Edificações – Brasília, DF) – http://www.guiadebrasilia.com.br/historico/memorial-d.htm  

…..

 Lucio Costa no Ministério da Educação. Rio de Janeiro, RJ.

  

desenho de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília. Acervo APDF.

 

Vista do Eixo Rodoviário, 1960 – ao fundo Esplanada dos Ministérios. Fonte da imagem: Revista Manchete n. 417, RJ, 16 abril 1960. Acervo pessoal.

 

Lucio Costa e Israel Pinheiro. Maquete de uma superquadra.

 

Planta do Plano Piloto de Brasília após as alterações feitas na implantação. 21 de abril de 1960. Fonte: CPDOC-FGV

 

Construção da Plataforma Rodoviária (projeto de Lucio Costa) no encontro dos dois Eixos, o Monumental com o Congresso Nacional ao fundo e o Rodoviário. Fonte da imagem: Revista Manchete no. 417, RJ, 16 de abril de 1960. Acervo pessoal. 


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: