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Cem sonetos de amor    Pablo Neruda

 

 

Não te quero senão porque te quero

E de querer-te a não querer-te chego

E de esperar-te quando não te espero

Passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,

Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,

E a medida de meu amor viageiro

É não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro

Seu raio cruel, meu coração inteiro,

Roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro

E morrerei de amor porque te quero,

Porque te quero, amor a sangue e fogo. 

 

 

Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembranças,

Sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,

Em regiões contrárias, num meio-dia queimante:

Era só o aroma dos cereais que amo.

Talvez te vi, te supus ao passar levantando uma taça

Em Angola, à luz da lua de junho,

Ou era tu a cintura daquela guitarra

Que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.

Te amei sem que eu o soubesse, e busquei tua memória.

Nas casas vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.

Mas eu já não sabia como eras. De repente

Enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:

Diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.

Como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.   

 

 

De noite, amada, amarra teu coração ao meu

E que eles no sonho derretem as trevas

Como um duplo tambor combatendo no bosque

Contra o espesso muro das folhas molhadas.

Noturna travessia, brasa negra do sonho

Interceptando o fio das uvas terrestres

Com a pontualidade de um trem descabelado

Que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.

Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,

À tenacidade que em teu peito bate

Com as asas de um cisne submergido,

Para que às perguntas estreladas do céu

Responda nosso sonho com uma só chave,

Com uma só porta fechada pela sombra.


 
 

One Comment

  1. Pablo Neruda parece captar a essência do amor combativo, os ciclos das dunas, o vai e vem da paixão e seu turpor. O gosto pela poesia amorosa desenvolve-se por aqueles que saber o que é sofrer por amor… e tem mais ”

    Cem Sonetos de Amor – Pablo Neruda Soneto –

    Soneto – X L I V

    SABERÁS que não te amo e que te amo
    posto que de dois modos é a vida,
    a palavra é uma asa do silêncio,
    o fogo tem uma metade de frio.

    Eu te amo para começar a amar-te,
    para recomeçar o infinito
    e para não deixar de amar-te nunca:
    por isso não te amo todavia.

    Te amo e não te amo como se tivesse
    em minhas mãos as chaves da fortuna
    e um incerto destino desditoso.

    Meu amor tem duas vidas para amar-te.
    Por isso te amo quando não te amo
    e por isso te amo quando te amo.

    (Pablo Neruda)
    do livro: Cem Sonetos de Amor

    tradução: Carlos Nejar


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