Skip navigation


 

Florbela Espanca (1894-1930) Ignorada pela preconceituosa crítica do início do século XX, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos. Seus sonetos são um ousado diário íntimo.

 

 

Eu

 

Até agora eu não me conhecia,

Julgava que era eu e eu não era

Aquela que em meus versos descrevera

Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era eu não o sabia

E, mesmo que o soubesse, o não dissera…

Olhos fitos em rútila quimera

Andava atrás de mim… E não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –

E achei o meu  olhar no teu olhar,

E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,

É a chama de tua alma a esbrasear

As apagadas cinzas da minha alma!

 

 

Inconstância 

    

Procurei o amor, que me mentiu.

Pedi à vida mais do que ela dava;

Eterna sonhadora edificava

Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,

E tanto beijo a boca me queimava!

E era o sol que os longes deslumbrava

Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a mar e a esquecer…

Atrás do sol dum dia outro a aquecer

As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,

Que há-de partir também… nem eu sei quando…

 

 

Amiga

    

Deixa-me ser a tua amiga, amor;

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor

A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for

Bendito seja tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, amor, devagarinho…

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-me bem!… Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei pra minha boca!…

 

 

Eu…    

 

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Seu a irmã do sonho, e desta sorte

Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber por quê…

Sou talvez a visão que alguém sonhou.

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!


 
 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: