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Falando de Toulouse-Lautrec

 

“Raça de incompletos, cambada de abortos

Fabricados com carnes débeis.

Suas mães então não tinham seios

Não puderam formar-lhes as bocas?

São todos filhos de idiotas

Que se entregam a amas de leite

Por isso são malfeitos,

Vão, pois, a pedir que os termine.”

 

“Aristide Bruant, no seu minúsculo cabaré do bulevar de Rochechouart, o Mirliton, acolhe com esta canção, ou com ofensas mais ou menos parecidas, seus clientes burgueses, que lá podem consumir péssima cerveja por alto preço e ouvi-lo cantar com voz fortíssima canções sentimentais e subversivas.

 

Lautrec e seus companheiros arruinados entusiasmam-se pela índole revolucionária de Bruant. Quando o poeta, com espírito e ternura, evoca os vários bairros de Paris, Lautrec pega os pincéis e pinta prostitutas para ilustrar as canções do amigo.

 

 

Depois do Mirliton de Bruant, Toulouse-Lautrec entra no Courrier Français e no Paris-Illustré, onde reencontra seu companheiro de escola, Maurice Joyant, que, tão apaixonado quanto ele pela pintura e por problemas tipográficos, é, ao mesmo tempo comerciante de quadros e responsável por essa revista. Juntos eles pesquisam os processos de impressão mais adequados. Lautrec, que é pintor, com o pincel na mão, estuda a ilustração mais simples possível.

 

O Mirliton não é o único local freqüentado por Lautrec. É visto regularmente na sala de baile do Moulin de La Galette, no alto de Montmartre, que desde o tempo em que Renoir a pintava, perdeu muito de sua simplicidade. Encontram-se ali gigolôs e prostitutas. Agora é, também, o lugar onde futuras bailarinas profissionais demonstram suas qualidades. Lá se vê a Goulue, muito jovem e destinada a uma brilhante e curtíssima carreira, dançar pela primeira vez. O Chat-Noir, que Rodolphe Salis dirige com autoridade, é um ambiente muito diferente. Frequentam-no poetas-cantores.

 

Em outubro de 1889, no número 90 do bulevar de Clichy, bem perto da Butte, mas já em Paris, abre-se uma casa de espetáculos cuja entrada é encimada por um enorme e falso moinho de vento: é a sala de baile do Moulin Rouge. Charles Zidler reuniu em um grande espaço barracões de feira, que oferecem atrações diferentes. Há um enorme elefante de madeira com os flancos móveis, que se abrem transformando-se em um palco no qual ondulam bailarinas mouriscas; ou então são macacos em liberdade, que passeiam pelo jardim. Mas o centro do local, a grande atração do conjunto, é uma sala de baile alta e grande, com uma enorme variedade de tapeçarias coloridíssimas e violentamente iluminadas por lâmpadas a gás. O espetáculo é muito variado e a multidão de espectadores, sentados ou de pé, constitui também, uma atração à parte. Uma orquestra, na qual dominam os metais, faz um barulho ensurdecedor para anunciar os cantores, os acrobatas, o célebre ‘Pétomane’ que canta as árias de música clássica com seu ‘órgão posterior’ e, sobretudo, o desfile pitoresco das bailarinas com seus vestidos que se levantam quando elas jogam as pernas para o ar, mostrando as coxas seminuas.

 

   

Pintor oficial da Goulue, Lautrec recebe a encomenda para o novo cartaz do Moulin Rouge. Ele tem apenas 26 anos e nunca tinha se aventurado nesta arte tão particular. Procura fugir imediatamente à forma de Willette, o cartunista da moda, que costumava criar quadros de temas agradáveis. Lautrec, pelo contrário, descobre logo nas primeiras tentativas o segredo da publicidade moderna: esquematizar e chocar. Exatamente no meio de sua composição, colocou uma Goulue fascinante, com um corpete vermelho, uma saia branca, a de perfil sob o capacete de cabelos louros. É ela, só ela, o tema deste singular painel. Em primeiro plano, contra a luz, aparece Valentin Le Désossé, parceiro habitual da bailarina. No fundo, as silhuetas dos espectadores e, lá em cima, em caracteres tipográficos elegantes e vistosos, as palavras Moulin Rouge, repetidas três vezes.

   

O cartaz e a bailarina obtêm um sucesso fulgurante. Paris descobre com o mesmo entusiasmo a estranha espontaneidade da Goulue e o gênio gráfico de Toulouse-Lautrec. Talvez eles se auxiliem mutuamente em sua glória tão nova. A partir daí, o jovem pintor passa a ser um cartazista muito solicitado. Bruant faz questão de ser retratado por seu amigo. Quando em 1892 participa do espetáculo do Ambassadeurs, o café-concerto da Champs-Elysées muito esnobe e muito caro, Bruant impõe um cartaz de Lautrec, que absolutamente não agrada a Ducare, o diretor do estabelecimento.

 

“Por caridade, retire-o, é horrível esta porcaria!”

“Meu velho, responde Bruant, você o deixará aqui e ainda mais: irá colocá-lo no palco sobre cavaletes enfeitados… e, você me compreende, se às 15 para as oito, não às oito, tudo não estiver em seus lugares, eu não faço meu número. Desapareço, entende?”

 

‘Na hora marcada’, conta Joyant, “o cartaz faz bela figura no palco, emoldurando Bruant. O sucesso do chansonnier e de seu retrato é enorme.

 

A partir daquele momento as reproduções de vedetes se multiplicam.

Jane Avril é realmente lançada por Lautrec. Ele a descobre quando se apresenta no Moulin Rouge. Muito esbelta e flexível, o rosto diáfano, Jane dança sozinha, sem vulgaridade nem provocação. Lautrec faz o retrato de Jane Avril, quando executa um cartaz para o café-concerto Divan Japonais e, depois, um outro muito grande para a apresentação de Jane no Jardin de Paris. May Belfort é muito menos graciosa, mas a sua originalidade chama a atenção de Lautrec. Ela é uma irlandesa que se apresenta em cenas vestida de bebê, com um gatinho preto nos braços e cantando em inglês. Estas abordagens divertem Lautrec, que faz para May, por ocasião de sua passagem pelo Petit Casino, um cartaz todo vermelho e muito bem concebido.

 

 

 

A mais revolucionária e mais misteriosa das heroínas de Lautrec é indiscutivelmente Loïe Fuller, que inventou uma maneira de dançar muito original, agitando véus de tule com longos bastões e envolvendo-se numa aréola multicolorida, graças a projetores elétricos que mudam a cor. Poetas e eruditos maravilharam-se diante da Loïe Fuller. Lautrec inventa para ela um novo processo litográfico: colore a mão e espalha também pó dourado, criando uma estranha gravura na qual se adivinha a cena na sombra. Vislumbra-se a cabeça e as pernas da atriz, mas o que se vê mesmo são os enormes véus matizados. Cartazista, litógrafo e apaixonado por espetáculos, Lautrec não deixa de se interessar pela pintura.

 

Os seus contatos com o estúdio Cormon rareiam com o passar dos anos e, a partir de 1889, quase não freqüenta mais o antigo professor, cuja técnica está cada vez mais afastada da sua. Preocupa-se, entretanto, em expor no Mirliton de Bruant, no Tambourin com Van Gogh, e também em uma sala reservada a um público muito burguês, o Cercle Volney. Também, a intervalos regulares, apresenta-se na Bélgica sempre que surge uma oportunidade. Por certo não é culpa sua se os seus compatriotas demoram tanto tempo para reconhecer seu valor como pintor e o vêem por tanto tempo apenas como um cartazista moderno e de grande sucesso.”

 

(texto reproduzido do livro: Henri de Toulouse-Lautrec – Os Impressionistas)

2 Comments

  1. Interessantes as suas observações sobre Lautrec, este gênio que, sentado lá nos fundos do Moulin Rouge, descreve com fidelidade as dançarinas fazendo realçar mais ainda o tão falado can-can. Quando fui ao Moulin Rouge, estava decadente(época de 80-90) e me causou impacto pelo abandono. Espero que já esteja remodelado – atelier de Toulouse-Lautrec que foi.Beijos e carinho Celina.

  2. Celina, felizmente o Moulin Rouge foi remodelado, ou melhor, \’restaurado\’ e em está pleno funcionamento (veja o site oficial do Moulin Rouge).http://www.moulinrouge.fr/home-flash-fr.htmlInicialmente, não estava nos meus planos ir lá – não por falta de interesse, mas por falta de tempo e pelo custo, que achei um pouco alto. Mas qando se está em Paris, você sabe disso, é impossível ficar preso a essas coisas, então fui.O espetáculo que estava sendo apresentado (não sei se ainda está em cartaz) era uma miscelânea dos vários tipos de atrações que o Moulin Rouge apresentou ao longo de sua existência: números musicais, mágicos, comediantes, números com animais, interessante. Mas quando as dançarinas apareceram com a tradicional roupa do can-can e começaram a agitar suas pernas, foi emocionante! Valeu!Além disso, pude sentir, ver e caminhar pelo mesmo espaço em que Toulouse-Lautrec e outros artistas criaram e vivenciaram experiências…. e isso não tem preço!!beijos e obrigada pelas visitas e comentáriosInicialmente, não estava nos meus planos ir lá – não por falta de interesse, mas por falta de tempo e pelo custo, que achei um pouco alto. Mas qando se está em Paris, você sabe disso, é impossível ficar preso a essas coisas, então fui.O espetáculo que estava sendo apresentado (não sei se ainda está em cartaz) era uma miscelânea dos vários tipos de atrações que o Moulin Rouge apresentou ao longo de sua existência: números musicais, mágicos, comediantes, números com animais, interessante. Mas quando as dançarinas apareceram com a tradicional roupa do can-can e começaram a agitar suas pernas, foi emocionante! Valeu!Além disso, pude sentir, ver e caminhar pelo mesmo espaço em que Toulouse-Lautrec e outros artistas criaram e vivenciaram experiências…. e isso não tem preço!!beijos e obrigada pelas visitas e comentários


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